Professora do IPTSP/UFG participa de missão de intercâmbio e cooperação em saúde em Moçambique
Agenda nas províncias da Zambézia e de Maputo incluiu visitas a serviços de saúde, atividades comunitárias e encontros com instituições de ensino e pesquisa para identificar oportunidades de formação e cooperação internacional
Texto: Marina Sousa
A professora Marta Rovery Souza, do Departamento de Saúde Coletiva do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (IPTSP/UFG), participou de uma missão técnica em Moçambique, no sudeste da África, voltada ao intercâmbio de experiências e à identificação de oportunidades de cooperação na área da saúde. Realizada nas províncias da Zambézia e de Maputo, a agenda reuniu visitas a unidades de saúde, atividades junto a comunidades, encontros com instituições de ensino e pesquisa e reuniões com representantes de órgãos governamentais. A iniciativa também buscou identificar necessidades de formação profissional e possibilidades de futuras parcerias entre instituições de Moçambique, Brasil e Itália. A missão também contou com o apoio da Fundação RTVE (Fundação Rádio e Televisão Educativa e Cultural).
A missão contou com a participação de Giovanna Rangel, egressa do Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (PPGSC/IPTSP/UFG) e pesquisadora da Universidade de Bolonha (UNIBO), na Itália. Também integraram a equipe representantes da AIFO (Associazione Italiana Amici di Raoul Follereau), organização que desenvolve ações de cooperação na área da saúde, além de consultoras convidadas e representantes de instituições parceiras. Entre as instituições visitadas estão o Instituto Nacional de Saúde (INS) de Moçambique, as Direções Provinciais de Saúde (DPS), os Serviços Distritais de Saúde da Mulher e Ação Social (SDSMAS), o Ministério da Saúde de Moçambique (MISAU), a Embaixada do Brasil em Moçambique e a recém-inaugurada Escola de Saúde Pública de Moçambique.
Ao longo da programação, a equipe conheceu serviços de saúde, acompanhou iniciativas apoiadas pela AIFO e conversou com profissionais e moradores sobre as condições de atendimento e as necessidades locais. A proposta, segundo Marta Rovery, não era prestar assistência direta, mas compreender as realidades encontradas e identificar demandas que pudessem orientar ações educacionais.
“O objetivo era observar as realidades locais e identificar necessidades de formação, para pensar em ações educacionais adequadas ao contexto”, explica a professora.
Experiências na província da Zambézia
Na província da Zambézia, a agenda incluiu uma visita ao Laboratório de Saúde Pública, em Quelimane, onde a professora conheceu também as novas instalações em construção. A equipe esteve ainda no Centro de Saúde de Mugeba, na comunidade de Mologone, e participou de atividades voltadas à aproximação com a população local.
Uma dessas ações foi uma atividade de sensibilização comunitária que reuniu moradores e profissionais para conversar sobre saúde, autocuidado e condições de vida. Com o apoio de tradutores, a iniciativa favoreceu a troca de experiências e permitiu conhecer as dificuldades enfrentadas pelas famílias no cotidiano.
Para Marta Rovery, o contato com os moradores foi um dos momentos mais marcantes da missão. “Foi um momento de grande satisfação e aprendizagem sobre a realidade, as dificuldades e a força da comunidade”, relata.
(Foto: Arquivo pessoal)
A experiência também chamou a atenção para os fatores sociais e estruturais que influenciam as condições de saúde. Em comunidades visitadas, a professora observou moradias simples, acesso limitado à água encanada e estradas precárias. As distâncias percorridas por mulheres para chegar aos serviços de saúde, inclusive durante o trabalho de parto, evidenciam as barreiras geográficas que podem dificultar o acesso à assistência.
Na avaliação da docente, essas condições mostram que as ações de saúde precisam considerar aspectos que vão além do atendimento clínico, como saneamento básico, habitação, transporte e acesso à educação. A compreensão desses fatores é importante para que as intervenções sejam planejadas de acordo com as necessidades concretas da população.
Apesar das dificuldades materiais, a recepção das comunidades foi marcada pela hospitalidade. Em algumas visitas, os moradores acolheram a equipe com palmas e música manifestando sua satisfação e gratidão pelo momento da visita. Os gestos emocionaram a professora, foi incrível segundo ela!!
A programação na Zambézia incluiu ainda uma roda de conversa e visitas aos ativistas de Namacura. Na ocasião, a equipe conheceu o trabalho dos agentes comunitários junto às populações rurais e sua atuação nos territórios, aproximando-se das estratégias utilizadas para levar informações e ações de saúde às comunidades.
Visitas e intercâmbio na província de Maputo
Na província de Maputo, a equipe se reuniu com representantes da Direção Provincial de Saúde para apresentar os objetivos da missão e conhecer as iniciativas desenvolvidas na região. O encontro também abriu espaço para discutir uma futura sessão de intercâmbio sobre cuidados de saúde, desigualdades e comunicação intersetorial.
A agenda contemplou visitas a unidades sanitárias com diferentes perfis de atendimento. No Centro de Saúde de São Dâmaso, a equipe conheceu o fluxo de assistência e os desafios relacionados à organização dos serviços, com atenção ao atendimento de pessoas com doenças não transmissíveis (DNT). A visita permitiu acompanhar as etapas que vão da recepção e do rastreamento ao início do tratamento e aos encaminhamentos para outros serviços.![FireShot Capture 1507 - Relatório de Atividades.docx - Google Docs - [docs.google.com].png](https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/58/o/FireShot_Capture_1507_-_Relat%C3%B3rio_de_Atividades.docx_-_Google_Docs_-__docs.google.com_.png)
Já no Centro de Saúde da Moamba, o foco foi a saúde da mulher. Além de conhecer as instalações e a organização do atendimento, a equipe acompanhou obras de adequação de acessibilidade.
As condições de infraestrutura também apareceram nas visitas a outras unidades apoiadas pela AIFO, algumas delas em processo de reforma. Segundo Marta Rovery, foram identificadas estruturas que ainda não contavam com rampas e precisavam de adaptações para melhorar o acesso de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida.
A professora também destacou a importância da fisioterapia e dos serviços de reabilitação, especialmente diante das necessidades de pessoas que sofreram acidente vascular cerebral (AVC) e de outros pacientes que precisam recuperar ou preservar sua funcionalidade.
Outro ponto da programação foi o acompanhamento de uma Brigada Móvel Integrada, iniciativa que leva diferentes serviços de saúde diretamente às comunidades. A visita permitiu observar a oferta de atendimentos no território e a organização de estratégias para alcançar pessoas que vivem distantes das unidades fixas.
Formação em saúde e diferenças epidemiológicas
A aproximação com instituições de ensino e pesquisa foi outro eixo da missão. Na Escola de Saúde Pública de Moçambique, a equipe conheceu áreas de atuação da instituição e participou de apresentações sobre a trajetória, a estrutura e os resultados do Instituto Nacional de Saúde de Moçambique, além de discussões sobre programas de investigação científica, desafios e perspectivas futuras.
As consultoras participantes da AIFO também compartilharam suas experiências profissionais e áreas de formação em apresentações no formato de aula. As atividades favoreceram o debate sobre possibilidades de cooperação entre instituições de Moçambique, Itália e Brasil, especialmente no desenvolvimento de iniciativas de capacitação e intercâmbio acadêmico.
Para Marta Rovery, a elaboração de ações formativas exige considerar as diferenças epidemiológicas e sociais entre os países e as próprias realidades locais. Em Moçambique, as doenças infecciosas e transmissíveis continuam tendo grande relevância, enquanto condições crônicas, como hipertensão e diabetes, também demandam atenção crescente.
A professora ressalta que os determinantes do adoecimento variam conforme o contexto. Enquanto fatores como obesidade e sedentarismo têm peso importante em determinados cenários brasileiros, nas comunidades visitadas em Moçambique a fome, a desnutrição e as dificuldades de acesso à alimentação e aos serviços básicos constituem desafios importantes.
Essas diferenças, segundo ela, precisam ser consideradas na definição dos conteúdos e das metodologias de formação. Mais do que reproduzir modelos adotados em outros países, a proposta é construir ações direcionadas às necessidades dos profissionais locais, às condições de funcionamento dos serviços e às prioridades identificadas pelos próprios parceiros.
Cooperação entre Brasil e Moçambique
A agenda institucional incluiu uma visita à Embaixada do Brasil em Moçambique, onde a equipe foi recebida pelo diplomata Ademar Seabra da Cruz Júnior e por outros representantes. O encontro contribuiu para as articulações sobre possíveis iniciativas conjuntas de formação, envolvendo a UFG e a Escola de Saúde Pública de Moçambique.
Entre as possibilidades discutidas estão a realização de cursos e a construção de processos formativos mais amplos, considerando as demandas apresentadas pelas instituições moçambicanas. A professora também mencionou a possibilidade de mobilizar recursos no Brasil e articular a infraestrutura disponível em Moçambique com o apoio de parceiros internacionais.
A equipe esteve ainda no Ministério da Saúde de Moçambique, onde se reuniu com representantes dos programas de Hanseníase, Saúde Sexual e Reprodutiva de Adolescentes e Jovens e Medicina Física e Reabilitação. Na ocasião, foram apresentadas as intervenções desenvolvidas pela AIFO e discutidas possibilidades de ampliar a colaboração institucional.
Entre os temas apontados como prioritários para futuras iniciativas estão formação profissional, cuidados de saúde primários, Brigadas Móveis Integradas, inclusão de pessoas com deficiência, doenças não transmissíveis, hanseníase, saúde sexual e reprodutiva de adolescentes e jovens e medicina física e reabilitação. Também foi discutida a possibilidade de ampliar as ações relacionadas à hanseníase nas províncias de Maputo e Gaza, diante do aumento de casos registrado nessas regiões.
Na avaliação de Marta Rovery, a aproximação com as instituições moçambicanas pode ampliar a participação da UFG em iniciativas internacionais de formação em saúde coletiva. A professora lembra que já existem relações acadêmicas entre Moçambique e instituições brasileiras e que a universidade possui histórico de vínculos com o país, inclusive por meio da circulação de estudantes e pesquisadores.
“Há um grande potencial para desenvolver ações em formação, pesquisa, intercâmbio e internacionalização. E a nossa intenção não é criar dependência permanente, mas contribuir para que os profissionais e as instituições locais fortaleçam sua autonomia e, gradualmente, tenham condições de conduzir suas próprias iniciativas”.
A docente ressalta, contudo, que a construção de parcerias depende do alinhamento entre as instituições envolvidas. Antes de definir propostas, é necessário compreender quais ações cada organização está disposta a apoiar, quais recursos estão disponíveis e de que maneira os objetivos institucionais podem ser conciliados.
Projeto de formação motivou participação na missão
O convite para participar da missão está relacionado à atuação de Marta Rovery no projeto de Formação em Análise de Situação de Saúde em Doenças e Agravos Não Transmissíveis (ASIS em DANTs), desenvolvido em parceria com o Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis (DAENT), do Ministério da Saúde.
A iniciativa promove a capacitação de profissionais e técnicos de secretarias e ministérios da Saúde do Brasil e de países integrantes da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), entre eles Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe.
A experiência acumulada no projeto aproxima a professora de desafios relacionados à vigilância em saúde e à formação de profissionais em diferentes contextos nacionais. A participação na missão permitiu aprofundar esse conhecimento a partir do contato com serviços, instituições e comunidades moçambicanas.
Ao longo das visitas, foram identificadas possibilidades de cooperação nas áreas de formação, pesquisa, saúde comunitária, cuidados primários e fortalecimento dos serviços. Entre os próximos passos discutidos estão a continuidade do diálogo institucional, a elaboração de propostas de formação e a realização de reuniões para avaliar projetos conjuntos, incluindo a possível participação do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás ( IPTSP/UFG)
As iniciativas, entretanto, ainda dependem da articulação entre os parceiros e da definição das condições necessárias para sua implementação. A perspectiva é que o intercâmbio contribua para o desenvolvimento de ações alinhadas às necessidades locais e para o fortalecimento da autonomia dos profissionais e das instituições de saúde de Moçambique.
Fonte: Assessoria de Comunicação do IPTSP/UFG
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