IPTSP/UFG sedia o 2º Seminário Goiano sobre Micobacterioses Não Tuberculosas
O evento foi promovido pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), por meio da Superintendência de Vigilância Epidemiológica
Texto e fotos: Maria Eduarda Silva
No dia 13 de agosto de 2026, o Auditório do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública, da Universidade Federal de Goiás (IPTSP/UFG) recebeu pesquisadores e gestores da saúde que atuam no enfrentamento de infecções causadas por micobactérias não tuberculosas (MNT). O seminário foi promovido pela Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), pela Superintendência de Vigilância Epidemiológica, com coordenação do Programa Estadual de Controle da Tuberculose e Micobactérias Não Tuberculosas.
A mesa diretiva de abertura contou com a presença do diretor do Instituto, Yves Mauro Fernandes, do Consultor Técnico da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde, Artemir Coelho de Brito, do coordenador do Programa Estadual de Controle de Tuberculose e Micobactérias Não Tuberculosas da Superintendência de Vigilância em Saúde (SUVISA), da SES-GO, Emílio Alves Miranda, e da enfermeira do Centro de Informações Estratégicas e Resposta em Vigilância em Saúde da Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia (CIEVS/SMS/GO), Divânia Dias da Silva França, que compareceu como representante da Superintendente de Vigilância em Saúde no Estado de Goiás, Flúvia Amorim.

O evento reuniu diferentes setores envolvidos com o tema e permitiu a troca de conhecimentos e experiências. Ao longo do encontro, profissionais da saúde, pesquisadores e gestores tiveram a oportunidade de compartilhar conhecimentos e experiências, aproximando a produção científica das necessidades encontradas na rotina dos serviços de saúde. O diálogo entre essas diferentes áreas contribuiu para o desenvolvimento de estratégias mais qualificadas de prevenção, diagnóstico, tratamento e manejo das MNT.

O consultor do Ministérios da Saúde, Artemir Coelho de Brito, iniciou sua palestra traçando um panorama desafiador da situação epidemiológica das Micobactérias Não Tuberculosas (MNT) no Brasil. Ele destacou que, ao contrário da tuberculose, as MNTs não são de notificação compulsória, o que gera uma subnotificação significativa e dificulta o conhecimento real da doença no país. A maioria dos casos notificados, especialmente os pulmonares, são registrados no Sistema de Tratamentos Especiais da Tuberculose (CTB), mas isso não reflete a totalidade dos casos, particularmente os não pulmonares, que muitas vezes ocorrem em clínicas privadas e não chegam ao sistema público de informação.

O especialista enfatizou a complexidade do diagnóstico e tratamento das MNTs, que variam conforme a mais de 100 espécies existentes, cada uma com perfis clínicos e de resistência distintos. Ele apontou a necessidade de melhorias na capacidade laboratorial dos estados e na capacitação das equipes para diferenciar a infecção da doença, seguindo critérios clínicos, radiológicos e microbiológicos rigorosos. Para o futuro, o Ministério da Saúde planeja avançar na vigilância, com a construção de uma ficha de notificação específica para MNT pós-procedimento e a discussão sobre a obrigatoriedade da notificação compulsória nacional, com o objetivo de melhorar o acesso ao tratamento e o conhecimento epidemiológico.
O evento seguiu com a palestra de Emílio Alves Miranda, que apresentou um panorama detalhado dos casos notificados no estado entre 2019 e 2025. Com base em 159 registros, ele destacou que 2024 foi o ano com o maior número de casos e que a forma clínica pulmonar é a mais prevalente, concentrando-se principalmente em pessoas com 60 anos ou mais (56% dos casos). Um dado preocupante revelou que a maioria dos pacientes (79,9%) eram casos novos, mas 20,1% correspondiam a reingressos após interrupção do tratamento, evidenciando um desafio crítico na adesão terapêutica.

O coordenador apontou que a distribuição geográfica dos casos está em Goiânia e municípios com maior estrutura de serviços, como Aparecida de Goiânia e Anápolis. Em relação ao desfecho do tratamento, a interrupção foi o principal problema:
"A interrupção do tratamento vem em primeiro lugar. Então, é um grande desafio para nós. A gente ainda tem 22,6% de pacientes que interrompem o tratamento. Precisamos virar o nosso olhar para essas micobactérias não tuberculose, porque o paciente que interrompe tem maior chance de vir a óbito."
Para enfrentar esses desafios, Emílio listou como prioridades a descentralização do diagnóstico e o fortalecimento da integração entre os serviços de referência, como o Hospital de Doenças Tropicais (HDT), e o Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen-GO).
O professor André Kipnis, do IPTSP, abordou a microbiologia e a patogênese das MNTs. O pesquisador explicou que as MNT são patógenos oportunistas e que sua capacidade de causar doenças depende de um desequilíbrio na interação hospedeiro-patógeno, influenciado por fatores como doenças de base (doença pulmonar crônica, bronquiectasia), imunossupressão (HIV, uso de corticoides) e até fatores genéticos. Ele detalhou a estrutura da parede celular das micobactérias, rica em ácidos micólicos e lipídios, que confere resistência intrínseca a desinfetantes e a muitos antibióticos, além de permitir a sobrevivência intracelular. Por fim, mencionou que sua pesquisa atual investiga o metabolismo do ferro nessas bactérias, o que pode abrir caminho para novas abordagens terapêuticas.

"A estrutura do envelope das micobactérias, com sua grande quantidade de ácidos micólicos, torna essa parede celular bastante impermeável para a entrada de várias moléculas. Isso confere uma resistência intrínseca a muitas drogas antimicrobianas e a agentes desinfetantes, o que é um grande desafio para o tratamento e para o controle de infecções."
O médico do Hospital Estadual de Doenças Tropicais - Dr. Anuar Auad e doutorando pelo Programa de Pós-Graduação em Medicina Tropical e Saúde Pública (PPGMTSP), do IPTSP, João Vitor Soares Coutinho abordou os conceitos fundamentais das micobactérias não tuberculosas (MNT), destacando sua ampla distribuição no ambiente (água, solo, biofilmes de chuveiros e encanamentos) e a importância da exposição ambiental no adoecimento. Ele explicou que a infecção ocorre quando há um desequilíbrio entre a exposição e a suscetibilidade do hospedeiro, influenciada por fatores como sexo feminino, idade avançada, baixo IMC, doenças pulmonares estruturais e imunodeficiências.
O especialista também ressaltou o papel do ambiente hospitalar como fonte de surtos, citando estudos que associam torneiras e chuveiros a infecções, defendeu uma nova "era do controle ambiental" na prevenção de infecções, lembrando que a água aerossolizada e o solo podem ser veículos de transmissão.
Larissa Rodrigues Alves Leite, doutoranda em Ciências da Saúde e médica no programa de tuberculose no serviço de atendimento do município de Anápolis, encerrou a primeira parte do evento com exemplificações de manifestações clínicas e nos fenótipos radiológicos das MNT, enfatizando que a forma pulmonar é a mais comum, com dois padrões principais: o fibrocavitário, semelhante à tuberculose, que afeta mais homens tabagistas e pacientes com sequelas pulmonares; e o bronquiectásico-nodular, predominante em mulheres pós-menopausa e não tabagistas. Ela destacou a importância da tomografia computadorizada para o diagnóstico, principalmente quando o raio-X é normal ou inconclusivo, e ressaltou que os sintomas, como tosse, expectoração, febre baixa e perda de peso, são inespecíficos e podem ser confundidos com outras doenças crônicas, exigindo alta suspeição clínica, especialmente em pacientes com doenças estruturais ou imunossupressão.

A programação do evento seguiu durante a tarde, com palestras e debates sobre o tema.
Fonte: Comissão de Comunicação do IPTSP
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