I Workshop de Micologia Médica fez de Goiânia, em dois dias, a Capital da micologia médica
Especialistas e pesquisadores do Brasil e do exterior apresentaram avanços recentes no diagnóstico, pesquisa e tratamento de doenças fúngicas em humanos e animais.
Texto e fotos: Karine Rodrigues
FunBios
A crescente pressão sobre sistemas hospitalares e laboratórios clínicos causada pelo avanço das infecções fúngicas invasivas — estimadas em 6,5 milhões de casos e 3,8 milhões de mortes anuais em todo o mundo — tem exigido do setor de saúde respostas mais rápidas, abordagens eficazes e profissionais mais preparados. Diante desse cenário, a Universidade Federal de Goiás (UFG), por meio do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) e Instituto de Ciências Biológicas (ICB), realizou entre 27 e 28 de março de 2026, o I Workshop de Micologia Médica (Mic Med). Trata-se do primeiro evento nacional, realizado em Goiás e direcionado à atualização profissional em diagnóstico, epidemiologia e manejo clínico das doenças fúngicas. Uma vez que, a infecções por fungos patogênicos é um tema relevante no setor de saúde devido ao aumento das infecções invasivas e da resistência aos antifúngicos disponíveis comercialmente.
Com uma programação intensa, palestrantes de referência e uma proposta clara de unir academia, indústria e rede de assistência, o Workshop destacou dados epidemiológicos recentes, pesquisas de fronteira, abordagens terapêuticas e atualizações críticas da área. Voltado para médicos, enfermeiros, biomédicos, farmacêuticos, patologistas, pesquisadores e estudantes. A abertura do evento contou com a presença de autoridades e organizadores, como o diretor do IPTSP/UFG, Yves Mauro Fernandes Ternes; o diretor Científico e de Inovação da Fapeg, Claudio Rodrigues Leles; a diretora-presidente da Fagep, Lucilene Maria de Sousa; e a coordenadora-geral da Rede FunBioS e do INCT-PDHN, Célia Maria Soares. Também participaram a vice-coordenadora do evento, profª Mirelle Garcia Bailão, e os professores organizadores Jadson Bezerra, Clayton Borges e Alexandre Bailão.
Para a coordenadora do evento, Profª. Ludmila de Matos Baltazar, o encontro inaugurou um “novo ciclo virtuoso para a micologia médica em Goiânia, Goiás”, conectando pesquisa, inovação e prática clínica de maneira inédita. “O Brasil vive um momento crítico para o diagnóstico das micoses e a atualização profissional se tornou uma necessidade urgente. Nosso compromisso era trazer especialistas de renome, fomentar colaboração e atualizar quem está na linha de frente”, afirma. Além disso, a professora considerou o evento muito bem-sucedido, sem intercorrências e com a presença de um público qualificado. Mais de 100 inscritos participaram do evento.
Embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) tenha publicado, em 2022, sua primeira lista oficial de patógenos fúngicos de alta preocupação, o setor ainda opera com lacunas significativas. A baixa suspeição clínica, a escassez de métodos diagnósticos avançados em muitos serviços e a limitada oferta de terapias antifúngicas criam um ambiente onde inovação não é mais opcional: tornou-se indispensável.
Palestras
Para a conferência de abertura, o professor doutor Arnaldo Lopes Colombo, uma das maiores autoridades em infecções fúngicas da América Latina reforçou que a candidemia continua sendo um desafio prioritário para hospitais brasileiros. De acordo com Colombo, o avanço das micoses invasivas exige que os serviços de saúde atualizem protocolos e incorporem novas ferramentas diagnósticas. A OMS priorizou o combate de 19 patógenos em todo o mundo, mas segundo o pesquisador no Brasil, diante de doenças mais graves, o foco foi reduzido a fim de que o controle de infecções por Cândida spp. seja muito mais eficaz.
No segundo dia de evento, as palestras foram iniciadas pela doutora Rosely Maria Zancopé Oliveira, que aprofundou a discussão sobre diagnóstico diferencial de micoses - uma área crítica para emergências, dermatologia, infectologia e unidades de terapia intensiva.
Na sequência de palestras, a professora do IPTSP Moara Alves Santa Bárbara Borges ressaltou que a coleta inadequada, o armazenamento incorreto e o transporte fora dos padrões interferem diretamente na qualidade do diagnóstico micológico. Essas intercorrências podem resultar em subnotificação, tratamentos pouco eficazes e aumento dos custos assistenciais.
Na terceira palestra da manhã, a professora doutora Anamaria Mello Miranda Paniago apresentou os desafios específicos do manejo de micoses oportunistas em pacientes com HIV avançado. O tema reforçou a urgência de políticas integradas entre vigilância, atenção primária e hospitais.
O doutor Rodrigo Paes de Almeida ministrou a palestra “Diagnóstico laboratorial de micoses de importância dermatológica”, em que destacou as dermatofitoses causadas por fungos dermatófitos. A manhã foi finalizada com a palestra técnica do Dr. Gabriel Tristão, que responde pelo Desenvolvimento de Negócios da América Latina da Bruker, um dos patrocinadores do evento. Tristão ressaltou as potencialidades dos equipamentos Maldi e IR Biotyper, adquiridos recentemente pelo IPTSP, e instalados no Centro Multiusuário de Pesquisa de Bioinsumos e Tecnologias em Saúde (CMBiotecs) do IPTSP/UFG.
Doenças e tratamentos
A tarde foi iniciada com a conferência do professor doutor Flávio de Querioz Telles Filho, que explanou sobre os “Novos insights sobre a esporotricose de transmissão zoonótica”, mostrou com fotos e vídeos os problemas causados pela esporotricose principalmente felina e também humana. Segundo o professor, os gatos apresentam em suas lesões elevada carga fúngica o que pode resultar na infecção de seus tutores. Eles podem transmitir a doença para humanos pela mordedura, arranhadura, e, espirro que pode atingir os tutores à distância. Segundo Telles, o grande problema no tratamento da esporotricose em humanos é o diagnóstico, que é demorado e muitas vezes a doença não é reconhecida adequadamente.
A doutora Maria Adelaide Millington proferiu a palestra “Micoses endêmicas e oportunistas no Brasil - avanços e perspectivas”, e relatou como as micoses são doenças tão negligenciadas no Brasil que muitas nem ser quer são descritas no rol de doenças. Ela explicou que micoses engloba um conjunto de doenças causadas por fungos e, ressaltou a importância de que a disciplina micologia componha as disciplinas aplicadas nas faculdades de medicina. Ao longo de sua fala, informou que a dispensação de medicamentos para controle e tratamento de micoses no Brasil para a rede pública de saúde, só foi iniciado com vigor a partir de 2020, depois da pandemia de covid-19, e para pacientes HIV positivo essa dispensação eficiente ocorre a partir de 2021.
O professor doutor Ricardo de Souza Cavalcante ministrou a palestra, “Cicatrizes invisíveis: o impacto e os desafios das sequelas pulmonares na paracoccidioidomicose”. O professor relatou que a paracoccidioidomicose (PCM) se trata de uma doença endêmica no País e relevante para áreas rurais e urbanas. “Estamos diante de doenças que exigem olhar especializado. Quando identificamos fatores prognósticos de forma precoce, reduzimos complicações e custos sociais”, afirmou.
O evento foi finalizado com a palestra da professora doutora Lisandra Serra Damasceno que trouxe para a audiência a sua experiência sobre a “Vigilância da resistência antifúngica em leveduras do gênero Cândida e Cryptococcus”, que é um tema estratégico, pois o problema atinge em larga escala hospitais e unidades de saúde de todos os tamanhos em todo o País. Ela reforçou que fungos resistentes requerem ainda mais cuidado e mais empenho em erradicar o problema.
O I Workshop de Micologia Médica foi realizado em um momento crucial em que o aumento das micoses invasivas, o crescimento da resistência antifúngica e a necessidade de modernização dos diagnósticos tornaram o evento uma plataforma estratégica de conhecimento, networking e inovação tecnológica. Com palestrantes renomados, temas de alto impacto e forte presença de profissionais da saúde, o Workshop poderá fazer de Goiás como polo de referência em micologia médica.
Agradecemos aos nossos apoiadores, cujo incentivo foi fundamental para a realização desta primeira edição do evento. O I Workshop de Micologia Médica é uma iniciativa da Universidade Federal de Goiás, por meio do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP), da Rede FunBioS e do INCT-PDHN. Contamos com o apoio institucional do Conselho Regional de Farmácia do Estado de Goiás (CRF-GO) e do Hospital Estadual da Mulher Dr. Jurandir do Nascimento (HEMU), além do apoio financeiro da Fapeg, do Sicoob UniCentro BR, da Fagep e da Bruker.
Por fim, a coordenadora-geral do Mic Med, professora Ludmila Baltazar, destacou a expectativa de que este seja o primeiro de uma série de encontros voltados ao fortalecimento da integração entre pesquisa, indústria e prática clínica, ampliando oportunidades para profissionais e instituições que atuam na área da saúde.
Confira alguns registros do I Workshop de Micologia Médica:
Fonte: Comissão de Comunicação IPTSP
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