Semana de Planejamento Pedagógico do IPTSP discutiu impactos da tecnologia, ética no serviço público, saúde mental e acessibilidade
Atividades reuniu docentes para discutir desafios atuais do ensino e o planejamento acadêmico de departamentos e coordenações de cursos
Texto: Marina Sousa
A Semana de Planejamento Pedagógico do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP) foi realizada entre os dias 23 e 27 de fevereiro e reuniu docentes e gestores acadêmicos para discutir desafios atuais do ensino superior. A programação abordou temas como saúde mental, práticas pedagógicas para inclusão de estudantes com indicativo para educação especial, ética no serviço público e os impactos das ferramentas de inteligência artificial na pesquisa.
Inicialmente, o professor da Faculdade de Educação e também presidente da Comissão de Ética da UFG, Marley Saraiva trouxe pontos essenciais relacionados à ética. Como, por exemplo, quando falamos em ética no serviço público, uma provocação importante é a seguinte: ética é o que você faz quando ninguém está olhando. Segundo o professor, a ética é um dos pilares fundamentais do serviço público e não depende de fiscalização constante, pois ela é inerente ao servidor público, que deve agir de modo ilibado o tempo todo, inclusive fora do ambiente de trabalho. Isso acontece porque, em muitas situações, servidores também são identificados como representantes da instituição, como no caso da Universidade Federal de Goiás (UFG). Portanto, as atitudes podem refletir na imagem da instituição.
“De forma geral, agir com ética significa agir com integridade em todas as nossas ações no serviço público. Isso envolve princípios como transparência, respeito, responsabilidade e compromisso com o interesse público”, ressalta o docente.
Existem diversas bases legais que estruturam a ética no serviço público. Entre elas estão a Constituição Federal, Código de Ética do Servidor Público, Regime Jurídico Único e a Lei de Conflito de Interesses. Todos esses normativos orientam a conduta dos servidores. Também foi abordado sobre situações em existem algumas vedações importantes. Por exemplo, o servidor não pode usar o cargo para obter benefícios pessoais ou favorecer outras pessoas. Da mesma forma, não é permitido aceitar presentes relacionados às atividades profissionais, especialmente quando existe relação direta de interesse.
Inteligência artificial e queda do tempo de atenção desafiam ensino
“Ao longo de toda transformação tecnológica, o papel do professor mudou bastante, e isso trouxe consequências”, tal declaração é do Professor Ricardo Limongi, da Faculdade de Administração, Ciências Contábeis e Ciências Econômicas (FACE/UFG), que trouxe para sua palestra aspectos da inteligência artificial no ensino e pesquisa.
Segundo o professor, muitas vezes ele tem a sensação de estar diante de um contexto muito diferente daquele em que foi formado. “Há palavras e gírias que os estudantes utilizam e que são distantes da minha geração”, comentou. Para ele, esse distanciamento revela um dos principais desafios do ensino atualmente.
Limongi destacou que os professores lidam hoje com a chamada geração dos nativos digitais, pessoas que nasceram em um contexto altamente tecnológico. No entanto, ele ressalta que crescer cercado por tecnologia não significa necessariamente utilizá-la de forma crítica. De acordo com o docente, essa geração também é considerada uma das mais vulneráveis à desinformação.
Embora o acesso à informação seja cada vez maior, Limongi afirma que a sociedade ainda carece de letramento científico. “Produzir ciência exige método, tempo e investimento contínuo. Não é possível gerar conhecimento científico na mesma velocidade em que a informação circula”, explica.
Outro ponto abordado foi a redução do tempo de atenção das pessoas. Dados apresentados durante a palestra indicam que, em 2004, o tempo médio de atenção era de cerca de 150 segundos (aproximadamente dois minutos e meio). Em 2012, caiu para 75 segundos e, em 2020, chegou a aproximadamente 47 segundos. Segundo o professor, essa redução representa um desafio para o ensino, já que esse tempo muitas vezes não é suficiente sequer para a leitura da primeira página de um artigo científico.
O docente também destacou que vivemos em um cenário de hiperconectividade, em que é comum as pessoas utilizarem o celular enquanto conversam ou acompanham outras atividades ao mesmo tempo. Essa fragmentação da atenção, segundo ele, pode gerar estresse e dificuldades de concentração.
Outro fenômeno observado é a chamada "terceirização da memória". Muitas pessoas passam a depender de ferramentas digitais para recuperar informações. “Muitos pensam: ‘por que eu vou lembrar disso se posso procurar no Google ou perguntar ao ChatGPT?’”, exemplifica. No entanto, Limongi ressalta que o aprendizado depende da memória ativa, que permite organizar informações e transformá-las em conhecimento.
Diante desse cenário, surge uma questão central: qual é o papel do professor? Para o pesquisador, enquanto os algoritmos são eficientes em fornecer respostas, cabe ao professor ensinar os estudantes a formular boas perguntas. “Essa é uma habilidade profundamente humana e difícil de automatizar”, afirma.
Estudos também indicam que o aprendizado tende a ser mais eficaz quando os conteúdos são apresentados por meio de histórias e experiências. Ao compartilhar casos reais, acertos e erros, o professor contribui para que os alunos estabeleçam conexões cognitivas mais profundas.
Para Limongi, pensar exige esforço. “Pensar dói, exige energia. Muitos alunos preferem respostas prontas, mas o papel do professor é justamente provocar esse processo de reflexão”, conclui.
As atividades da semana contaram com a participação do diretor do IPTSP, Yves Mauro Fernandes Ternes, da vice-diretora Thais Rocha, das chefias de departamento do instituto, além das coordenações dos cursos de graduação em Biotecnologia e Fisioterapia e dos programas de pós-graduação em Medicina Tropical e Saúde Pública e em Biologia da Relação Parasito-Hospedeiro.
Fonte: Comissão de Comunicação do IPTSP
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