Professora Marta Rovery fala sobre a feminização do envelhecimento e importância de cuidados paliativos no jornal Outra Saúde
Doutora em demografia, a professora faz parte do Departamento de Saúde Coletiva, do IPTSP/UFG
Texto: Maria Eduarda Silva
O portal de jornalismo independente Outra Saúde, focado na defesa do SUS e da saúde coletiva e da ciência, entrevistou a professora Marta Rovery do Departamento de Saúde Coletiva (DSC), do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP/UFG).
Durante a entrevista, a docente ressaltou alguns pontos importantes a respeito do envelhecimento populacional no Brasil, incluindo a insuficiência de investimentos e preparo do Estado para o crescimento acelerado da população idosa. De acordo com dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa média é de 1,6 filho por mulher, representando uma redução no nível de fecundidade e, portanto, aumento do número de pessoas que envelhecem sem descendentes.
Feminização do envelhecimento
Entre os pontos mais importantes deste processo, a professora ressalta a feminização do envelhecimento, isto é, um contingente expressivo de mulheres na terceira idade, muitas vivendo sozinhas, resultado da sobremortalidade masculina precoce e novas formas de organização doméstica.
Ainda segundo dados do IBGE, entre 2000 e 2022, a proporção de lares chefiados por mulheres aumentou de 22,2% para 48,8%. Neste mesmo intervalo, casais sem filhos passaram de 13% para 24,1%. Frente ao levantamento, a professora destaca:
“O maior desafio no Brasil é a feminização do envelhecimento. Teremos um grupo importante de mulheres idosas e sozinhas, sobretudo pelo movimento das famílias sem filhos. Esse cuidado não pode ser pensado exclusivamente como responsabilidade familiar. Essa dimensão da nossa cultura precisa ser revista”.
Além disso, o trabalho desempenhado pelas mulheres influencia em suas condições na velhice; acúmulos de tarefas domésticas e cuidados com filhos, companheiros e parentes podem levar a desgastes físicos e emocionais, como artroses, dores e quadros depressivos.
Esse contexto é possibilitado pela diferença na longevidade entre os sexos: levantamentos do IBGE indicam que mulheres vivem, em média, 79,9 anos, enquanto homens chegam a 73,3 anos. Segundo a docente Marta Rovery, a sobremortalidade masculina na juventude tem peso decisivo.
“Os homens estão morrendo mais cedo por conta da violência, acidentes de transporte e homicídios, que atingem principalmente homens entre 20 e 30 anos. Ao morrerem antes, eles não chegam às faixas etárias mais avançadas, o que altera a composição da pirâmide etária e amplia a presença feminina entre os idosos”.
Dessa forma, o país envelhece com predominância feminina, o que significa, para o sistema público de saúde, uma necessidade de organização, qualificação da assistência e estratégias que levem em conta o crescimento da população e as desigualdades de gênero.
Impactos no SUS
Durante a entrevista, ao comentar sobre políticas públicas, a professora defende maiores investimentos em atendimentos domiciliares com equipes multiprofissionais, fortalecimento das instituições de longa permanência e identificação de possíveis cuidadores no território.
“As instituições de longa permanência precisam sair da conotação de abandono. Elas são fundamentais em diferentes necessidades dos idosos. Também é necessário investir em hospitais de internação e cuidado domiciliar, dependendo do estágio e das condições”, pontua.
Além disso, o fortalecimento dos cuidados paliativos é outro ponto de extrema importância, principalmente por trazer uma perspectiva de conforto e de respeito à autonomia da pessoa.
“Nem todo idoso precisa ser hospitalizado. Muitas doenças crônicas avançam e não têm reversão. O cuidado paliativo é uma estratégia fundamental, inclusive para a assistência domiciliar”, afirma.
O avanço da longevidade no Brasil é, de forma geral, um fenômeno complexo e que compele desigualdades em dimensões sociais, culturais e sanitárias. Para que esse cenário seja modificado ou minimizado, é necessário planejamento governamental, ampliação de serviços especializados, qualificação das instituições de longa permanência, inovações nos modelos de convivência e fortalecimento da assistência domiciliar.
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*Maria Eduarda Silva é bolsista de jornalismo no projeto IPTSP Comunica e é supervisionada pela jornalista Marina Sousa.
Source: Comissão de Comunicação IPTSP
Categories: Notícias