Ciência Lá e Cá: Intercâmbio latino - americano na consolidação de trocas culturais e riqueza científica
Acompanhe a trajetória de Ana Melissa Gonzalez Miragliotta, discente da Universidad Nacional del Nordeste, da Argentina, em seu doutorado sanduíche no Brasil
Texto: Maria Eduarda Silva
Apesar das fronteiras espaciais e linguísticas, o Brasil e o restante da América Latina estão constantemente intercambiando conhecimentos e experiências. Um grande exemplo disso é Ana Melissa Gonzalez Miragliotta que, por meio do programa “Move la América”, da CAPES, recebeu uma bolsa de doutorado sanduíche na Universidade Federal de Goiás (UFG).
O programa promove a internacionalização do Sistema Nacional de Pós - Graduação no Brasil, e concede bolsas para mestrado sanduíche, com duração de dois a três meses, e doutorado sanduíche, com bolsas entre dois a seis meses de duração.
Mas essa não foi a primeira vez que Ana Melissa teve a chance de estar em terras tupiniquins. A oportunidade de vir ao Brasil pela primeira vez surgiu por meio de uma colaboração acadêmica entre seu grupo de pesquisa na Argentina, o Laboratório de Produtos Naturais da Universidade Nacional do Nordeste (UNNE), e pesquisadores do Laboratório de Produtos Naturais e Síntese Orgânica (LabPN), do Instituto de Química (IQ) da UFG. O contato surgiu em 2018, por meio de um programa de escala docente da Associação de Universidade Grupo Montevidéu (AUGM).
Os dois grupos passaram a trabalhar em conjunto e seu interesse mútuo em aprofundar o estudo de plantas medicinais, utilizadas na etnomedicina, levou a um convite para integrar um projeto interdisciplinar, unindo conhecimentos em fitoquímica. Em 2024, a discente teve a oportunidade de realizar uma estadia de 15 dias no Brasil, junto a uma colega, por meio da AUGM. Na ocasião, Ana Melissa trabalhou no LabPN, do IQ, e sua colega no Laboratório de Biotecnologia Ambiental e Ecotoxicologia (LaBAE), centro multidisciplinar do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP).
“A partir dessa experiência, surgiu a oportunidade de me submeter ao programa “Move la América”, da CAPES, que me permitiu retornar à UFG com uma bolsa de doutorado sanduíche, a fim de realizar estudos de avaliação toxicológica com os extratos com os quais trabalho”, explica.
Nesta oportunidade, realizou estudos do LaBAE, sob orientação do professor Thiago Lopes Rocha, e no LabPN, sob orientação das professoras Vanessa Gisele Pasqualotto e Lucília Kato.

Apesar de estar em um outro país completamente novo, a discente afirma que a recepção a ajudou a se adaptar melhor ao Brasil.
“Fui muito bem recebida e acolhida pelos meus colegas e, embora tenha exigido alguns ajustes iniciais, especialmente em relação à dinâmica dos grupos de pesquisa, percebi que, no Brasil, há uma forte ênfase no trabalho colaborativo entre diferentes laboratórios e áreas de conhecimento. Isso enriquece significativamente a troca de experiências e amplia as possibilidades de investigação”, relata.
De acordo com ela, tanto o Brasil quanto a Argentina contam com pesquisadores excelentes e de alto nível, o que torna a interação científica entre os dois países extremamente enriquecedora.
Tema de Pesquisa e Relevância Científica
A pesquisa desenvolvida por Ana Melissa consiste na identificação, caracterização química, avaliação do potencial antidiabético e análise toxicológica de extratos obtidos a partir de compostos presentes em espécies do gênero Phyllanthus, tradicionalmente utilizadas na medicina popular de diferentes regiões. O trabalho busca, além da prospecção química, compreender de forma integrada tanto a eficácia terapêutica quanto a segurança de uso dessas plantas.
O estudo envolve técnicas de extração, isolamento e purificação de substâncias, análise por cromatografia líquida acoplada a espectrometria de massas (LC - MSMS) e ensaios in vitro e in vivo:
“Buscamos contribuir com a validação do uso tradicional dessas espécies, identificar moléculas com potencial farmacológico para o desenvolvimento de novos fitoterápicos e gerar dados que orientem o uso seguro e racional de recursos naturais, conciliando o conhecimento popular com a evidência científica”, explica.
Impactos acadêmicos e profissionais
Para Ana Melissa, a experiência teve um impacto muito significativo na sua trajetória acadêmica e profissional. Ela destaca que, por exemplo, no aspecto técnico, ampliou suas competências no uso de metodologias avançadas de análise química, utilizando ferramentas como GNPS, ensaios biológicos, além de proporcionar contato com diferentes abordagens experimentais.
“O convívio diário com pesquisadores experientes e a imersão em um ambiente de pesquisa internacional fortaleceram minhas habilidades de trabalho em equipe, comunicação científica e gestão de projetos. Essa vivência também ampliou minha rede de contatos acadêmicos, abrindo portas para futuras colaborações e consolidando meu interesse em seguir carreira voltada à pesquisa aplicada em produtos naturais, com foco no desenvolvimento de soluções terapêuticas seguras e eficazes”.
Além disso, a pesquisadora destaca que teve a oportunidade de participar de seminários ministrados pelos integrantes dos grupos dos dois laboratórios, LaBAE e LabPN, e participar de eventos de divulgação científica.
“Essas experiências complementares ampliaram minha formação acadêmica, enriqueceram minha visão sobre a pesquisa e fortaleceram minha capacidade de comunicar ciência para diferentes públicos”.
Para além da contribuição profissional e acadêmica, Ana Melissa destaca a riqueza da troca cultural e científica proporcionada pelo convívio com pesquisadores de diferentes áreas e formações, além da possibilidade de acompanhar e participar de todas as etapas da pesquisa. Além disso, pontua que certas vivências mudaram seu olhar sobre determinadas metodologias e experimentações.
“Um aspecto particularmente marcante foi a oportunidade de entrar em contato com modelos de experimentação animal de ponta, como o zebrafish, amplamente utilizado em estudos toxicológicos e farmacológicos devido à sua versatilidade e relevância científica. Essa experiência prática ampliou minha visão sobre metodologias modernas de avaliação da toxicidade e reforçou meu interesse em integrar ferramentas inovadoras às pesquisas em produtos naturais”, comenta.

Agora, Ana Melissa está na reta final para defender sua tese, com o tema “Espécies de Phyllanthus com potencial anti diabético e antioxidante”, em fevereiro deste ano.

*Maria Eduarda Silva é bolsista de jornalismo no projeto IPTSP Comunica e é supervisionada pela jornalista Marina Sousa.